segunda-feira, 4 de novembro de 2024


HISTÓRIA DO CONGREGACIONALISMO

NO BRASIL
 


No desembarque do médico-missionário escocês, Dr. Robert Reid Kalley e sua esposa Sarah Poulton Kelley em solo brasileiro, em 10 maio de 1855.  O Brasil império já iniciava nesta época um processo de crescimento expansionista, econômico e exploratório em toda a sua área.

A sociedade era literalmente desigual e injusta. Era uma sociedade dividida entre o patriarcado rico e a faminta miserável classe escrava. Esse era o estado político da sociedade entre ricos e miseráveis. 

A religião oficial de todo sistema opressor era a igreja católica com todo seu poder. E ser brasileiro é ser católico, era isso que dizia a constituição brasileira em seu artigo 5º, quando a primeira constituição foi autorgada em 1824. A justiça não existia para um todo, mas para alguns, e o direito não era exercido em justiça para todos. Nisto o evangelho protestante era considerado, religião de estrangeiro e uma religião tolerada.

E ser protestante era literalmente ser uma pessoa não ingrata. Não tinha seu casamento reconhecido, não poderia ser enterrado no solo da igreja, não tinha certidão de casamento, não votava e nem poderia ser votado, pois tudo isso era concedido pela igreja católica.

Dr. Robert Reid Kalley traçou um plano de evangelização que levaria o evangelho de Jesus Cristo a todas as classes sociais, com reuniões em residências, artigos em jornais, distribuição de bíblias. Foi assim que escravos e senhoras da alta corte ouviram o evangelho da verdade.  

Em 19 de Agosto de 1855, o casal Kalley, realizou a primeira classe de catequese em sua casa em Petrópolis-RJ, onde cinco crianças foram ensinadas em língua portuguesa, sobre a história do profeta Jonas. Nascendo a primeira escola bíblica no Brasil.

E a primeira igreja Kalleyana começou a nascer. A consistência da evangelização foi tomando forma e o primeiro irmão brasileiro, Pedro Nolasco de Andrade foi batizado em 1858, surgindo então a primeira igreja evangélica, a igreja Fluminense e  surgindo então, o primeiro protestante brasileiro. Juridicamente o irmão Pedro Nolasco de Andrade, perdeu a proteção de seu direito jurídico.

Em 1859, Dr. Robert Reid Kalley, recebeu um despacho oficial do ministro inglês, Hon W. Stuart, que tendo recebido denuncia do embaixador católico do vaticano no Brasil, sugerindo que Dr. Robert Reid Kalley fosse embora de Petrópolis, pelo simples fato de estar fazendo reuniões ilegais.

Dr. Robert Reid Kalley providenciou um corpo jurídico para a causa: Nabuco Araujo, Sabino Urbano Pessoa de Melo e Caetano Alberto Soares. E uma das suas alegações era: “os cidadãos brasileiros adultos têm ou não a liberdade perfeita de seguir a religião que quiserem?”. A causa da liberdade de culto teve adeptos famosos, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Tavares Bastos e o próprio Imperador D.Pedro II.

É certo afirmar que o Dr. Robert Reid Kalley não tinha nenhuma ligação com a igreja congregacional da Inglaterra e não era membro de nenhuma igreja congregacionalista e sim da igreja presbiteriana livre da escócia.

Apesar do Dr. Robert Reid Kalley não ser membro de nenhuma igreja congregacional, mas a missão que ele queria ser enviado para a china, fosse uma missão congregacional.  O cancelamento de sua missão a China, foi por causa de saúde debilitada de sua esposa ao clima do local. Dr. Robert Reid Kalley era casado com a Sra. Margareth, sua primeira esposa, que veio a falecer quando saiu de viagem de retorno da ilha da Madeira para a Escócia.

Tempos depois da morte de sua primeira esposa Sra. Margareth, Dr. Robert Reid Kalley viaja para o oriente - Líbano e lá conhece a sua segunda esposa Sarah Poulton Wilson.

A Sra. Sarah Poulton kalley era membro de uma igreja congregacional na Inglaterra. Sabe-se que o sistema da igreja congregacional surgiu no século XVI        na Inglaterra. E certamente Sarah Kalley exerceu uma grande influencia ao seu esposo no que se refere ao congregacionalismo e seus fundamentos e princípios.

Essa influencia de alguma certa forma trouxe o casal Kalley para o Brasil no ano de 1855, para apregoar as boas novas em terra de tupiniquins.

A consistência da evangelização e o amor a obra de Deus pelo casal Kalley foi tomando forma cronológica e didática. O próprio Dr. Robert Kalley se definia como um ministro, sem restrições denominacionais.

As igrejas fundadas por Kalley não tinha nenhum vinculo ou raiz histórica com a instituição congregacional de base, ou seja, que tenha qualquer tradição denominacional. Essas igrejas eram literalmente independentes, tinham suas identidades próprias.

A primeira igreja evangélica fundada por Kalley em 11 de julho de 1858, foi chamada de igreja evangélica fluminense que está até hoje localizada na Rua Camerino, numero 102, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Já em 19 de outubro de 1873 foi fundada mais uma igreja por Kalley. A igreja Evangélica Pernambucana, localizada na Rua Nogueira, 190, no bairro de Santo Antônio, próximo ao Mercado de São José. A igreja evangélica Pernambucana foi a primeira igreja protestante do estado e a partir dela o protestantismo foi espalhada por outras regiões do Nordeste do Brasil.

Em 10 de julho de 1876 o casal Kalley volta para a Escócia deixando um pioneiro legado e promissor. Deixando 13 igrejas organizadas desde 1858 à 1876. E essas igrejas foram denominadas como igrejas Kalleyana.

Sua esposa Sarah Kalley também deixou uma grande contribuição com seu talento de musicista. Sarah foi a principal tradutora, autora e editora dos belos hinos da coletânea, que por muito tempo os seus Salmos & Hinos foram utilizados por outras tradições protestantes durante quase todo o século XX.

No dia 17 de novembro de 1861 foi oficialmente feita a primeira edição dos Salmos & Hinos no Brasil, em um culto publico com grande louvor a Deus. O Salmos & Hinos foi muito utilizado nos cultos congregacionais e a sua influência tornou estabelecida o padrão do culto protestante no Brasil com músicas sacra.

Após a volta do Dr. Robert Kalley a escócia em 1876, ficou em seu lugar no pastorado da Igreja Evangélica Fluminense, o pastor João Manoel Gonçalves dos Santos. O Pastor João Manoel Gonçalves dos Santos elaborou uma súmula doutrinária composta de 28 artigos conhecida como: “Breve exposição das doutrinas fundamentais do cristianismo”. Esses 28 artigos não contém todo ensino apostólico, mas somente as doutrinas fundamentais.

Em 1913 os congregacionais brasileiros, organizaram a sua primeira convenção de igrejas congregacionais. Foram discutidas duas importantes pautas. A primeira pauta foi a organização de uma estrutura denominacional que ficaria conhecida como União das igrejas Evangélicas indenominacionais do Brasil, com a iniciativa de reunir a majoritária, mas o nome foi esquecido. Mas em 1969 foi estabelecido outro nome que permanece até o dia de hoje: UIECB - União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

A segunda pauta importante que foi discutida na primeira convenção, foi a criação de um seminário Teológico que se encarregaria de oferecer formação acadêmica aos candidatos ao ministério pastoral. A pauta foi contemplada/aprovada e executada no ano seguinte em 1914.

No quadro abaixo segue o percurso da história de longa duração do congregacionalismo brasileiro:

 

PERIODO

RECORTE TEMPORAL

CARACTERISTICA GERAL

1

Kalleyano

1855 A 1876

Fundação das primeiras igrejas

2

Pré-institucional

1876 a 1913

Igrejas independentes Kalleyans

3

(In)denominacional

1913 a 1942

Tentativas denominacionais

4

Fusão

1942 a 1968

Hibrismo eclesiástico

5

Cismático

1961 a 1969

Dissidências e divisões

6

Denominacionalista

1969 a 2022

Tensões eclesiásticas

 

A história do congregacionismo brasileiro é rica e ampla. E é necessário compreende-lo para entender o nascimento do protestantismo no Brasil.

E a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil tem esse legado em sua história.

Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho da Salvação. Soli Deo Gloria.

 

 

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:

- Carreiro, Vanderli Lima - Nossa doutrina – comentário dos 28 Artigos da Breve Exposição das doutrinas fundamentais do cristianismo: Rio de Janeiro, Unigevan, Editora, 2005, 305 p.

- O cristão, “ Nos pregamos o Cristo 1Co 1:23”, ano 126º, nº 02, Especial 2017.

- Carreiro, Vanderli Lima – Fundamentos e Principios do Congregacionalismo: Campinas – São Paulo: editora Contextualização, 2016.

- O cristão – informativo oficial da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil, “nós pregamos a Cristo 1Co 1:23”, edição de aniversário, agosto de 2020, ano 128º, nº 01.

- Santos, Lyndon de Araujo – capítulo 5, Independência ou maquina! – uma história institucional dos congregacionais no Brasil 1913 a 2022. Santos.

 

ALEXANDRE PEREIRA DE MORAES

OUTUBRO DE 2024